Fundesa RS avalia cenário do mercado de carne bovina
O presidente do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do Rio Grande do Sul (Fundesa), Rogério Kerber, participou de entrevista ao programa Rumo ao Campo deste sábado (15) para falar sobre a atuação da entidade, os desafios da defesa sanitária no Estado e o atual cenário das principais cadeias de produção de proteína animal. Durante a conversa, Kerber também avaliou o comportamento dos preços das carnes, o mercado internacional e a importância da participação dos produtores rurais na prevenção e no controle de doenças.
Criado a partir da união de entidades representativas da avicultura, da pecuária leiteira, da pecuária de corte e da suinocultura, o Fundesa tem como principal finalidade dar suporte ao sistema de defesa sanitária animal do Rio Grande do Sul. A atuação busca preservar a saúde dos rebanhos, proteger a produção e oferecer maior segurança ao produtor rural diante de eventuais ocorrências sanitárias.
Segundo Rogério Kerber, o Fundo também exerce papel importante quando há necessidade de intervenção e indenização de animais em razão de doenças de notificação obrigatória. Entre os exemplos estão enfermidades como febre aftosa, peste suína africana, influenza aviária, doença de Newcastle, tuberculose e brucelose. De acordo com o presidente, somente em indenizações relacionadas a ocorrências sanitárias, já foram destinados mais de R$ 55 milhões.
Kerber explicou ainda que o funcionamento do Fundesa ocorre a partir da contribuição dos produtores e das agroindústrias que abatem ou processam a produção das quatro principais cadeias de proteína animal representadas pela entidade. Os recursos arrecadados são aplicados no fortalecimento da defesa sanitária, incluindo a capacitação de profissionais, o treinamento de equipes e a estruturação de ferramentas para prevenção e enfrentamento de doenças.
Sistema de defesa sanitária passa por modernização
Um dos principais avanços em andamento está relacionado à modernização e informatização dos procedimentos do sistema de defesa sanitária animal. Conforme Rogério Kerber, o objetivo é que, até o final de 2026 ou ao longo de 2027, os procedimentos estejam informatizados e possam ser executados em tempo real, por meio da internet e de aplicativos.
O projeto envolve parcerias com instituições de ensino e pesquisa, incluindo a Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e a Universidade Federal de Santa Maria. A modernização busca reduzir a utilização de documentos em papel e tornar mais ágil o acompanhamento das informações e das ações realizadas pelo serviço veterinário.
Para Kerber, a tecnologia representa um ganho importante de eficiência, principalmente diante da necessidade de respostas cada vez mais rápidas quando há suspeitas de doenças. A capacidade de identificar, investigar e controlar rapidamente uma ocorrência sanitária é fundamental para preservar os rebanhos e evitar prejuízos à produção e às exportações.
Mercado internacional influencia preços das carnes
Durante a entrevista, o presidente do Fundesa também analisou as recentes oscilações nos preços das carnes. Segundo ele, o mercado gaúcho e brasileiro está diretamente conectado ao cenário internacional, já que o Brasil possui uma participação expressiva no fornecimento mundial de proteínas animais.
No caso da carne bovina, a valorização observada atualmente está relacionada, principalmente, a uma mudança no ciclo de produção. O país passa por um período de menor oferta de animais para abate, enquanto produtores começam a reter mais fêmeas para reprodução. Com menos animais chegando ao mercado, a oferta diminui e os preços acabam sendo pressionados para cima.
Outro fator apontado por Kerber é a situação dos Estados Unidos, que atualmente possuem um dos menores rebanhos bovinos dos últimos anos. Como o país também é um dos grandes produtores mundiais, qualquer alteração em sua produção interfere diretamente no equilíbrio da oferta e dos preços no mercado internacional.
Esse cenário já chega ao consumidor brasileiro, especialmente nos cortes mais tradicionais do churrasco gaúcho, como costela e picanha. O presidente do Fundesa, entretanto, considera que se trata de um movimento cíclico e que a tendência é de recomposição da oferta à medida que o rebanho volte a crescer.
Frango e carne suína apresentam cenário diferente
Enquanto a carne bovina passa por um momento de valorização, os setores de frango e suínos enfrentam uma realidade diferente. Conforme Kerber, houve crescimento da produção, próximo de 6% nos primeiros meses do ano, aumentando a oferta e pressionando os preços.
Além da maior produção, o mercado interno também é afetado pela redução do poder de compra das famílias. Com inflação, juros elevados e maior comprometimento da renda, o consumidor passa a buscar alternativas mais acessíveis para manter o consumo de proteína animal.
Nesse cenário, frango e carne suína acabam ganhando competitividade nas gôndolas dos supermercados. Para o presidente do Fundesa, mesmo diante das dificuldades enfrentadas atualmente pelos produtores e pelas indústrias, essas oscilações fazem parte do comportamento cíclico das cadeias produtivas e podem ser revertidas posteriormente.
Kerber destacou ainda que a produção brasileira continua apresentando bom desempenho nas exportações, apesar de desafios logísticos e das condições do mercado internacional. A diversificação dos destinos e a força do Brasil como fornecedor mundial de proteína ajudam a sustentar as cadeias produtivas.
Brasil mantém forte presença na produção mundial
O presidente do Fundesa ressaltou que o Brasil ocupa uma posição de destaque na produção mundial de proteína animal. Mesmo com o grande volume destinado ao mercado internacional, a maior parte da produção permanece no próprio país, garantindo o abastecimento interno.
Nos setores de aves e suínos, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul concentram aproximadamente 70% a 75% da produção brasileira. O Rio Grande do Sul apresenta uma participação especialmente relevante nas exportações de aves, enquanto a maior parte da produção de carne suína permanece destinada ao mercado brasileiro.
Na pecuária de corte, o consumo interno continua tendo grande importância, especialmente no Rio Grande do Sul, onde o consumo de carne bovina está fortemente ligado à cultura do churrasco e às tradições do Estado. Com a chegada do mês de setembro e das festividades farroupilhas, a demanda costuma ganhar ainda mais destaque.
Kerber também enfatizou que a qualidade da proteína produzida no Brasil e no Rio Grande do Sul tem avançado significativamente. Melhorias genéticas, programas nutricionais, controle sanitário e redução da idade de abate contribuem para uma produção cada vez mais eficiente e qualificada.
Rio Grande do Sul busca ampliar mercados
O presidente do Fundesa também chamou atenção para as oportunidades e os desafios relacionados ao comércio exterior. O Estado, que já possui reconhecimento internacional pela qualidade de sua produção, busca ampliar sua presença em mercados considerados estratégicos.
Entre as agendas previstas está a visita de uma missão da Coreia do Sul ao Rio Grande do Sul, programada para setembro, com o objetivo de avaliar as condições do Estado para uma possível habilitação ao mercado sul-coreano.
Kerber também citou as exigências do mercado europeu e a necessidade de adequação aos critérios estabelecidos para a entrada de produtos de origem animal. Para ele, o fortalecimento do sistema de defesa sanitária é um dos principais instrumentos para garantir a competitividade do Estado e do país.
A condição do Rio Grande do Sul como área livre de febre aftosa sem vacinação também é considerada um diferencial importante para a abertura e manutenção de mercados internacionais.
Experiência com influenza aviária mostrou importância da preparação
Ao avaliar os desafios sanitários enfrentados recentemente, Rogério Kerber destacou a ocorrência de influenza aviária registrada no Estado e a capacidade de resposta do sistema de defesa. Segundo ele, o problema foi controlado em menos de 30 dias, permitindo que o Brasil recuperasse rapidamente os mercados que haviam imposto restrições.
Para Kerber, o episódio demonstrou na prática o valor de um sistema de defesa sanitária estruturado, capacitado e preparado para agir diante de situações adversas.
O presidente reforçou que esse trabalho não depende de uma única instituição. Produtores rurais, órgãos públicos, entidades representativas, universidades, profissionais da área e o próprio Fundesa fazem parte de uma estrutura que precisa atuar de forma integrada.
Produtor rural tem papel fundamental
Durante a entrevista, Kerber fez um apelo aos produtores rurais para que mantenham atenção permanente à saúde dos animais. Como estão diariamente nas propriedades, são eles que podem identificar os primeiros sinais de uma possível enfermidade.
Em caso de qualquer anormalidade, a orientação é procurar imediatamente a Inspetoria Veterinária do município e realizar a notificação. Segundo o presidente do Fundesa, o sistema de defesa sanitária do Rio Grande do Sul possui estrutura para dar uma resposta inicial em até 12 horas e encaminhar exames laboratoriais, com resultados que podem ser obtidos em aproximadamente 36 a 48 horas, dependendo do caso.
As amostras de determinadas doenças de notificação obrigatória precisam ser encaminhadas aos laboratórios de referência do Ministério da Agricultura localizados fora do Estado, responsáveis pela análise desses materiais.
Para Rogério Kerber, a rapidez na comunicação é fundamental para evitar que uma eventual doença se espalhe e cause prejuízos maiores ao produtor, às cadeias produtivas e à economia gaúcha.
Produção gaúcha enfrenta desafios, mas mantém potencial
O presidente do Fundesa também reconheceu as dificuldades enfrentadas pelo Rio Grande do Sul nos últimos anos, especialmente em razão de estiagens e eventos climáticos que atingiram a produção agropecuária.
Mesmo diante desses obstáculos, Kerber destacou o potencial do Estado na produção de proteína animal, ressaltando a qualidade genética dos rebanhos, o trabalho dos produtores, a estrutura das agroindústrias e o avanço tecnológico das cadeias produtivas.
Para ele, a combinação entre produção de qualidade, sanidade animal e capacidade de resposta às doenças coloca o Rio Grande do Sul em uma condição diferenciada. O fortalecimento contínuo desse sistema é considerado essencial para garantir segurança ao produtor, qualidade ao consumidor e acesso aos mercados nacionais e internacionais.
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