Produtor relembra trajetória de 50 anos na agricultura
Em alusão ao Dia do Motorista, celebrado em 25 de julho, e ao Dia do Agricultor, comemorado em 28 de julho, o programa Rumo ao Campo, da Rádio Planetário, recebeu o produtor rural José Adriano Parizotto, conhecido como Juca Parizotto, para uma conversa sobre sua história de vida, a evolução da agricultura e os desafios enfrentados pelos produtores rurais.
Natural da comunidade de Barro Preto, em Espumoso, Juca acumula cerca de 50 anos de experiência na agricultura. Durante a entrevista, relembrou que começou a trabalhar ainda na infância, quando praticamente todas as atividades eram realizadas manualmente.
“Naquele tempo era tudo no braço. A gente puxava milho com carroça de boi, cortava galhos, tratava os animais e ajudava em tudo. Com 14 anos já dirigia trator”, recordou.
O produtor destacou que a realidade do interior era muito diferente da atual. Segundo ele, as comunidades eram mais povoadas, havia escola, moinho, comércio e muitas famílias viviam exclusivamente da agricultura familiar. As crianças dividiam os estudos com o trabalho na propriedade e encontravam tempo para brincar em campos de futebol improvisados e jogar bolita com os amigos.
Perda do pai mudou os rumos da família
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi o relato sobre a morte do pai, quando Juca tinha apenas 16 anos. O falecimento obrigou a família a reorganizar a propriedade e fez com que ele deixasse o sonho de cursar Agronomia para permanecer no campo ao lado da mãe.
“Cheguei a prestar vestibular para Agronomia em Passo Fundo, mas meu pai faleceu cedo e precisei ficar na propriedade. A terra era pequena, a família era grande e precisava de alguém para continuar o trabalho.”
A propriedade da família permanece até hoje com Juca e seu filho, preservando um patrimônio construído por gerações.
Agricultura familiar continua sendo a base
Hoje, morando na comunidade de Arroio da Prata, Juca trabalha ao lado do filho e da esposa em uma área de aproximadamente 120 hectares. Ele faz questão de destacar que a agricultura familiar continua sendo a principal característica da região de Espumoso.
“O pessoal olha para alguns produtores e pensa que são grandes propriedades, mas muitas vezes aquela área precisa ser dividida entre dois ou três filhos. Aqui ainda predomina a agricultura familiar.”
Segundo ele, o trabalho da esposa também é fundamental para o funcionamento da propriedade, organizando a rotina da família e dando suporte às atividades desenvolvidas no campo.
Tecnologia transformou a agricultura
Ao comparar o início de sua trajetória com a realidade atual, Juca ressaltou a grande evolução tecnológica vivida nas últimas décadas.
Ele lembra que, antigamente, o plantio era feito praticamente “no olho”, utilizando referências como cercas e árvores para manter o alinhamento das máquinas. Hoje, equipamentos com GPS, piloto automático e agricultura de precisão fazem parte da rotina das lavouras.
“O produtor evoluiu muito. Hoje temos tecnologia, máquinas modernas e informação, mas ainda precisamos continuar evoluindo no manejo do solo e na rotação de culturas.”
Entre as práticas que considera essenciais para aumentar a produtividade, Juca destacou o cultivo de milho em rotação com a soja e o uso de plantas de cobertura para melhorar a estrutura do solo.
Clima é o maior desafio dos últimos anos
Apesar dos avanços tecnológicos, o produtor afirma que os últimos cinco anos foram extremamente difíceis para a agricultura gaúcha.
Segundo ele, o principal problema não é apenas o preço da soja, mas a redução da produtividade causada pelas condições climáticas.
“Antes de falar em preço, precisamos ter produção. Sem grãos não existe renda.”
Juca contou que enfrentou perdas severas provocadas pela estiagem e até por tempestades de granizo às vésperas da colheita, lembrando que a atividade agrícola depende diretamente das condições do tempo.
“É uma empresa a céu aberto. Enquanto o grão não está armazenado, não existe garantia.”
Gestão é tão importante quanto produzir
Durante a entrevista, o agricultor também chamou atenção para a necessidade de administrar corretamente a propriedade.
Para ele, o produtor moderno precisa acompanhar custos, preços dos insumos, mercado internacional e oportunidades de comercialização, além de planejar investimentos em máquinas e equipamentos.
“O agricultor precisa gerenciar da porteira para dentro e da porteira para fora.”
Ele lembrou que fatores como guerras, variações cambiais e oscilações do mercado internacional impactam diretamente os custos de produção e os preços recebidos pelo produtor.
Sucessão familiar garante continuidade
Outro tema abordado foi a sucessão familiar. Juca contou que o filho assumiu parte das responsabilidades na propriedade quando ele enfrentou um problema de saúde, permanecendo até hoje na atividade.
Segundo o produtor, a participação dos jovens é essencial para manter viva a agricultura, especialmente em um cenário em que muitos deixam o campo em busca de oportunidades nas cidades.
Fé e perseverança para continuar produzindo
Ao encerrar a entrevista, Juca afirmou que, apesar das dificuldades enfrentadas pela agricultura nos últimos anos, permanece motivado e apaixonado pela profissão.
Para ele, produzir alimentos exige coragem, planejamento e confiança, já que o agricultor convive diariamente com fatores que fogem do seu controle.
“Temos que colocar nas mãos de Deus, fazer a nossa parte e seguir em frente. Quem trabalha na agricultura sabe dos riscos, mas também sabe da importância de produzir alimento e contribuir para o desenvolvimento da nossa região.”
A entrevista integrou a programação especial da Rádio Planetário em homenagem ao Dia do Agricultor e do Motorista, datas que reconhecem duas categorias fundamentais para o desenvolvimento econômico do país: quem produz no campo e quem transporta a riqueza gerada pela agricultura.
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