Família Castelli relata desafios da produção leiteira e impactos da crise do setor
Na manhã deste sábado, 17 de janeiro, o programa Rumo ao Campo, da Rádio Planetário, recebeu nos estúdios o casal Adelir e Rosângela Castelli, produtores de leite da localidade de Passo do Padre, no interior do município de Selbach. A entrevista foi conduzida pelo jornalista Fernando Kopper e trouxe um retrato detalhado da realidade vivida por quem produz leite no Rio Grande do Sul, abordando desde a rotina diária na propriedade até os efeitos da crise prolongada no setor leiteiro.
Logo no início da conversa, Fernando Kopper relembrou uma reportagem produzida na propriedade da família Castelli no início de 2022, ainda em pleno inverno, quando acompanhou de perto a lida desde as primeiras horas da madrugada. A lembrança serviu como ponto de partida para discutir como, apesar do passar dos anos, muitos dos problemas enfrentados pelos produtores seguem praticamente os mesmos, especialmente no que diz respeito à remuneração insuficiente e à falta de compreensão da sociedade urbana sobre o trabalho no campo.
Adelir Castelli explicou que a família atua na atividade leiteira há mais de 30 anos, desde antes do casamento, e que a produção sempre foi a principal fonte de renda. Segundo ele, a rotina do produtor de leite não conhece feriados, fins de semana ou condições climáticas favoráveis. “O produtor sabe a hora que começa o trabalho, mas nunca sabe a hora que vai terminar”, resumiu. Atualmente, mesmo com a adoção da ordenha robotizada e do sistema de confinamento, o dia começa por volta das 5h, com chimarrão, café e, logo depois, o manejo dos animais.
Rosângela Castelli destacou que, embora a tecnologia tenha trazido avanços importantes em termos de organização e monitoramento do rebanho, ela não eliminou os desafios. Pelo contrário, exigiu novos investimentos e maior controle sobre dados, sistemas e custos. A produtora também comentou sobre a percepção distorcida de parte da população, que associa o preço do leite no supermercado a um suposto enriquecimento do produtor rural. “Existe a ideia de que o produtor está ficando milionário, mas a realidade é completamente diferente. Investimos cada vez mais para produzir com qualidade, mas não somos remunerados de forma justa”, afirmou.
A decisão de investir em confinamento e ordenha robotizada, segundo o casal, esteve diretamente ligada à sucessão familiar e à saúde. A filha do casal, que cursou técnico em agropecuária no Instituto Federal de Ibirubá, deixou claro que não daria continuidade à atividade caso o trabalho permanecesse excessivamente pesado e desgastante. A tecnologia, nesse contexto, surgiu como alternativa para garantir qualidade de vida, bem-estar animal e a possibilidade de permanência da nova geração no campo.
Durante a entrevista, Adelir detalhou o alto nível de responsabilidade envolvido na atividade. Hoje, o casal é responsável por cerca de 115 animais, desde terneiras recém-nascidas até vacas em plena produção. O sistema informatizado alerta imediatamente qualquer queda na produção, indicando possíveis problemas de saúde, como mastite, antes mesmo que a situação se agrave. Ainda assim, parte do manejo segue dependendo da observação diária e da experiência acumulada ao longo dos anos.
Outro ponto amplamente abordado foi o rigor da fiscalização e dos testes de qualidade do leite. Rosângela explicou como funcionam as análises realizadas antes e depois da coleta pelo caminhão do laticínio, incluindo testes de acidez, presença de resíduos de antibióticos e contaminações. Em caso de irregularidades, o prejuízo recai diretamente sobre o produtor, que pode ser responsabilizado por todo o volume transportado em um dos tanques do caminhão. “O produtor vive sempre em cima de uma corda bamba”, resumiu.
A crise do setor leiteiro também foi tema central. Rosângela destacou que 2025 foi um ano extremamente difícil e que 2026 começou com o décimo mês consecutivo de queda no preço pago ao produtor. Atualmente, muitos recebem menos de R$ 1,90 por litro, enquanto os custos de produção, em propriedades mais tecnificadas, giram em torno de R$ 2,50 por litro. “A conta não fecha. Muitos produtores estão fechando no vermelho e empurrando dívidas para frente”, alertou Adelir.
A importação de leite de países vizinhos, segundo o casal, é um dos fatores que mais pressionam os preços no mercado interno. Enquanto o produtor brasileiro arca com uma carga tributária elevada, produtos importados entram no país com custos menores e menor rigor, o que compromete a competitividade. Rosângela citou iniciativas já adotadas no Paraná e em Santa Catarina para restringir a importação e demonstrou expectativa de que projetos semelhantes avancem no Rio Grande do Sul nos próximos meses.
A entrevista também abordou as consequências sociais da crise, como o retorno do êxodo rural. Com margens cada vez menores e uma rotina extremamente exigente, muitos produtores estão abandonando a atividade, vendendo animais e arrendando terras para outras culturas. Para Adelir, se esse movimento continuar, o impacto será sentido diretamente pelo consumidor no futuro. “Quando as vacas forem para o corte, a produção vai cair e o leite vai encarecer. Quem não valoriza o produtor agora vai pagar mais caro depois”, afirmou.
Ao final da conversa, o casal reforçou que produzir leite vai muito além de ordenhar vacas. Envolve planejamento, investimento, conhecimento técnico, resistência física e emocional, além de uma dedicação diária que poucas atividades exigem. A entrevista no Rumo ao Campo deixou claro que, por trás da caixinha de leite nas prateleiras, existe uma cadeia complexa e cada vez mais pressionada, que precisa ser compreendida e valorizada para garantir o abastecimento e a permanência das famílias no campo.




