Meteorologista Márcio Ücker analisa eventos climáticos extremos e projeções para a safra
Na manhã desta quarta-feira, 14 de janeiro, durante o programa Giro da Notícia, da Rádio Planetário, o comunicador Rodrigo Oliveira entrevistou o meteorologista e especialista em agronegócio Márcio Ücker, natural de Ibirubá, que mantém base meteorológica própria no município e atua diretamente no acompanhamento do clima voltado à produção rural em toda a região.
Logo no início da conversa, Márcio destacou a satisfação em participar do programa e explicou que sua ligação com o clima vem desde a infância, construída a partir da vivência no interior e da observação cotidiana dos sinais da natureza. Segundo ele, muito do conhecimento climático tradicional foi aprendido com pessoas mais velhas do meio rural, que interpretavam mudanças no tempo a partir de sinais naturais que, muitas vezes, hoje não são plenamente considerados pelos modelos convencionais. Embora não tenha cursado meteorologia formalmente, por limitações da época para sair do município e estudar fora, Márcio afirmou que jamais se afastou dessa área, unindo a experiência prática à busca constante por informação técnica e qualificação.
Ele ressaltou que a instalação de uma estação meteorológica em Ibirubá surgiu justamente da necessidade de oferecer dados confiáveis e locais ao produtor rural, contribuindo para decisões mais seguras no manejo das lavouras. O trabalho, segundo ele, é voltado à inteligência agroclimática, com foco na redução de riscos e no planejamento agrícola em um cenário cada vez mais instável.
Ao tratar dos eventos climáticos extremos, Márcio alertou para o aumento significativo da frequência e intensidade desses fenômenos desde novembro, não apenas no Rio Grande do Sul, mas também em Santa Catarina e no Paraná. Microexplosões, temporais severos, granizo e volumes excessivos de chuva passaram a ocorrer com mais regularidade, e janeiro ainda apresenta potencial para novos episódios extremos. Para o especialista, trata-se de uma elevação exponencial desses eventos, algo que não era comum em décadas anteriores.
Questionado sobre as causas, ele foi direto ao afirmar que a ação humana tem papel central nesse processo. Márcio explicou que mudanças recentes em padrões atmosféricos globais, como a alteração no comportamento das correntes de vento no Polo Antártico e o surgimento de ondas de água quente no Pacífico Equatorial, região determinante para fenômenos como El Niño e La Niña, estão influenciando diretamente o clima da América do Sul. Muitos desses fenômenos, segundo ele, sequer eram mapeados nos modelos tradicionais.
Durante a entrevista, Márcio também fez questão de defender o agronegócio de críticas frequentes relacionadas ao meio ambiente. Ele afirmou que o produtor rural é, na prática, um dos maiores defensores da preservação ambiental, mantendo áreas de matas, banhados e margens de rios protegidas conforme a legislação. Para ele, a maior parcela da responsabilidade ambiental recai sobre os centros urbanos, onde há produção excessiva de lixo, alto consumo de plástico e descarte inadequado de resíduos.
O especialista comparou a realidade brasileira com a europeia, onde esteve recentemente em processo de especialização, destacando que nos países da Europa há maior conscientização ambiental por parte da população urbana, com políticas mais eficazes de reciclagem, reaproveitamento e redução de resíduos. No Brasil e em outros países da América do Sul, segundo ele, ainda há um atraso significativo nesse aspecto, o que contribui diretamente para o agravamento das mudanças climáticas.
A discussão avançou para os impactos da industrialização e do consumo acelerado, com destaque para o aumento das embalagens plásticas, redução da vida útil dos produtos e crescimento do lixo gerado diariamente. Márcio defendeu que a conscientização individual é o primeiro passo, ressaltando que cada embalagem descartada corretamente representa um dano a menos ao meio ambiente e, consequentemente, ao futuro das próximas gerações.
No campo das projeções climáticas, Márcio trouxe informações relevantes para o produtor rural. Ele explicou que, embora no final de 2024 houvesse previsão de um episódio de La Niña fraco a moderado, com risco de nova estiagem, o cenário mudou significativamente. Dezembro apresentou volumes de chuva dentro ou acima da média, janeiro segue com comportamento climático considerado normal, e fevereiro deve manter condições estáveis ao menos até a metade do mês.
Além disso, o especialista confirmou a previsão de ingresso do fenômeno El Niño, que tende a favorecer períodos de maior precipitação, trazendo alívio ao campo após uma sequência de frustrações de safra. Ele lembrou que, nos últimos cinco a seis anos, os produtores enfrentaram repetidas perdas, sendo quatro por estiagem e uma por enchente, o que comprometeu seriamente a capacidade de investimento nas lavouras.
Ao abordar a impossibilidade de controlar excessos de chuva, Márcio foi objetivo ao afirmar que, diferentemente da seca, que pode ser amenizada com irrigação, não há como “colocar guarda-chuva na lavoura”. O caminho, segundo ele, é o planejamento baseado em dados climáticos, escolha adequada das épocas de plantio e adoção de estratégias que minimizem danos em fases críticas das culturas, como floração e enchimento de grãos.
Ele reforçou que o acompanhamento meteorológico contínuo é essencial para reduzir riscos e orientar decisões no campo. Mesmo com menor investimento tecnológico em algumas propriedades, devido às dificuldades financeiras recentes, Márcio avalia que a safra atual apresenta potencial superior ao observado nos últimos anos, desde que as condições climáticas se mantenham dentro do esperado.
No encerramento, o especialista chamou atenção para o impacto direto do agronegócio na economia urbana. Segundo ele, o campo funciona como o “trator” que puxa uma grande corrente, envolvendo comércio, serviços e indústria. A expectativa de uma boa colheita não é apenas do agricultor, mas também das cidades, que dependem desse fluxo financeiro para retomar crescimento e estabilidade.
Márcio também criticou a falta de políticas públicas eficazes para o setor, mencionando a dificuldade de avanço de projetos como a securitização das dívidas agrícolas, que, em sua avaliação, não devem prosperar da forma como foram apresentados. Ele afirmou que muitos produtores ficaram de fora das medidas anunciadas e que há um distanciamento entre as decisões políticas e a realidade do campo.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
Reportagem: Repórter Rodrigo Oliveira




