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Relatório da Malha Sul atrasa enquanto sucateamento da ferrovia amplia prejuízos no Sul do país

Relatório da Malha Sul atrasa enquanto sucateamento da ferrovia amplia prejuízos no Sul do país
22.12.2025 10h48  /  Postado por: villaadriano

Previsto inicialmente para o segundo semestre de 2025, o relatório final do grupo de trabalho instituído pelo Ministério dos Transportes para discutir a situação da Malha Sul ainda não foi publicado. O grupo, criado em novembro de 2024, teve seu prazo prorrogado por mais 90 dias em junho deste ano, com encerramento formal em setembro. Mesmo com o fim do prazo, o ministério informa que o documento segue em “fase de finalização”.

Segundo o Ministério dos Transportes, o relatório trará uma análise detalhada da proposta apresentada pela concessionária Rumo Logística, responsável pela operação da Malha Sul desde 1997, além de avaliar alternativas como a renovação do contrato vigente ou a abertura de um novo processo licitatório. Em nota, a pasta afirmou que permanece comprometida com a busca de soluções logísticas para a região Sul e que o documento está sendo elaborado com rigor técnico e institucional.

Enquanto o relatório não é divulgado, cresce a preocupação com o cenário de desuso e sucateamento da ferrovia, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Uma carta manifesta assinada pelos governadores dos quatro estados que integram a Malha Sul — Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul — aponta que mais de 50% da extensão total da ferrovia está fora de operação. Em Santa Catarina, apenas 17% dos trechos seguem ativos, enquanto no Rio Grande do Sul esse percentual gira em torno de 25%. A situação é menos crítica no Paraná, com cerca de 69% da malha em operação, e no Mato Grosso do Sul, com aproximadamente 67%.

O documento dos governadores também chama atenção para sinais evidentes de abandono da infraestrutura ferroviária remanescente. Os chefes do Executivo estadual defendem o fortalecimento do modal ferroviário como estratégia fundamental para o desenvolvimento regional, destacando que os estados atendidos pela Malha Sul respondem por cerca de 18,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Para eles, investimentos federais na ferrovia são essenciais para integração regional, redução de custos logísticos, aumento da competitividade dos setores produtivos e sustentabilidade do transporte de cargas.

Em 1997, quando a concessão foi firmada, a Malha Sul abrangia 3.823 quilômetros de extensão. Antes da enchente histórica registrada em maio de 2024, apenas 1.680 quilômetros estavam em operação. Após o desastre climático, esse número caiu para menos de mil quilômetros, agravando ainda mais o isolamento ferroviário do Rio Grande do Sul em relação ao restante do país. O impacto direto tem sido o aumento dos custos de produção e a perda de competitividade da economia gaúcha.

Um dos exemplos citados é o da Be8 Energy, em Passo Fundo, que recebe um investimento de R$ 1,1 bilhão para a implantação da maior usina de etanol do Estado. Apesar disso, a fábrica de biodiesel do grupo teve seus custos significativamente ampliados com o sucateamento da ferrovia. Segundo o empresário Erasmo Battistella, a linha férrea era essencial para o escoamento da produção ao Sudeste, e a perda dessa logística representa um custo adicional anual estimado em cerca de R$ 7 milhões apenas na unidade de Passo Fundo.

“Já faz dois ou três anos que perdemos o posto de maior produtor de biodiesel do Brasil para o Mato Grosso, principalmente por eles avançarem em infraestrutura. A ferrovia praticamente não existe mais. Isso é perda direta de competitividade”, afirmou Battistella.

De acordo com o secretário estadual adjunto de Logística e Transportes, Clóvis Magalhães, os principais trechos ainda operantes no Rio Grande do Sul concentram-se no eixo Cruz Alta–Rio Grande, utilizado para o escoamento da produção ao porto, além de áreas próximas ao Polo Petroquímico de Triunfo. Segundo ele, o restante da malha apresenta elevado grau de sucateamento, reflexo de uma concessão considerada longa e baseada em critérios inadequados.

Magalhães também criticou a baixa participação dos estados nas discussões conduzidas pelo grupo de trabalho do Ministério dos Transportes. Enquanto isso, os prejuízos se acumulam, especialmente com a sobrecarga das rodovias. “Estamos sucateando nossas estradas por falta de uma ferrovia eficiente. Caminhões pesados, como bitrens, acabam assumindo o transporte de grãos e produtos industriais. Só para atender uma planta da Braskem em Triunfo, são estimados cerca de 12 mil caminhões por ano transportando produtos líquidos”, destacou.

Um estudo encomendado pelo governo do Estado e elaborado pela Portos RS aponta que, desde 2006, houve uma queda de 50% no volume de cargas transportadas por ferrovias no Rio Grande do Sul. O levantamento indica ainda que, caso o modal ferroviário operasse de forma eficiente, seria possível reduzir em pelo menos 22% o custo do frete até o porto de Rio Grande.

Para o secretário adjunto, a participação do Estado na revisão do modelo de concessão é fundamental. Ele reconhece que não é viável reativar toda a extensão original da malha, mas defende uma reestruturação que permita à ferrovia voltar a desempenhar um papel estratégico no desenvolvimento do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, que enfrenta problemas semelhantes.

Renovação de contrato ou nova licitação

O contrato de concessão da Malha Sul com a Rumo Logística se encerra em fevereiro de 2027. A empresa já protocolou junto ao Ministério dos Transportes, por meio da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), uma proposta de renovação que prevê a redução da malha ferroviária no Rio Grande do Sul. Atualmente, cerca de 920 quilômetros estão em operação no Estado, número que poderia ser reduzido para aproximadamente 860 quilômetros, conforme a proposta apresentada.

O governo estadual acompanha a discussão com preocupação, uma vez que a aceitação desse modelo representaria a redução de quase 80% da malha originalmente concedida em 1997. O Ministério dos Transportes classifica o processo como uma “possibilidade de repactuação” da concessão, condicionada à recuperação dos trechos danificados pelas enchentes. No entanto, a Rumo teria informado não ter interesse nas condições propostas. Diante disso, a Secretaria Nacional de Transporte Ferroviário confirmou que estudos para uma nova licitação já estão em andamento.

Apesar da expectativa inicial de divulgação entre agosto e setembro, o relatório do grupo de trabalho ainda não foi apresentado. Segundo o Ministério dos Transportes, o documento irá analisar os custos de recuperação da malha, as alternativas contratuais e servirá como base para decisões estratégicas sobre o futuro da ferrovia na região Sul do país. A Rumo Logística foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou.

Fonte: Correio do Povo

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