Tecnologia do pivô transforma a rotina no campo e garante produção em meio às estiagens em Espumoso
Nos últimos anos, a tecnologia do pivô de irrigação deixou de ser apenas uma alternativa e passou a representar, para milhares de produtores rurais do Rio Grande do Sul, uma verdadeira questão de sobrevivência. Diante de estiagens severas e consecutivas, algumas entre as mais graves da história recente, agricultores têm encontrado na irrigação mecanizada a segurança que o clima já não garante. Para compreender como essa tecnologia vem transformando a realidade no campo, a reportagem conversou com o produtor espumosense Sandro Durigon, que compartilhou sua experiência ao jornalista Fernando Kopper durante uma entrevista especial ao público das rádios Planetário e Líder.
Durigon vive a realidade do interior desde a infância e viu de perto a angústia de depender exclusivamente da chuva para manter a lavoura viva. Segundo ele, a adoção dos pivôs trouxe ao campo algo que, por décadas, era apenas desejo: previsibilidade. A família iniciou o uso da tecnologia em 2018, com um pivô destinado a 100 hectares. A partir daí, a transformação foi evidente. Ano após ano, novos equipamentos foram sendo adquiridos, até que hoje a propriedade concentra 14 pivôs distribuídos em áreas de milho e soja, com foco também na produção de sementes para o Mato Grosso do Sul.
O produtor conta que, desde o primeiro equipamento instalado, ficou claro que o investimento, apesar de alto, valeria a pena. Mesmo enfrentando percalços no primeiro ano, como a erosão causada por uma chuva de mais de 200 milímetros logo após o plantio, o resultado foi compensador. A irrigação garantiu produtividade mesmo quando o clima foi totalmente desfavorável. “A segurança de ter a umidade quando precisa muda tudo”, explica Durigon. Em anos de estiagem severa, como o de 2023, a diferença entre áreas irrigadas e áreas de sequeiro foi abissal: enquanto o milho irrigado superou 200 sacas por hectare e a soja safrinha ultrapassou 60 sacas, no sequeiro a média da soja não passou de 39 sacas.
Hoje, toda a operação dos pivôs é automatizada. Durigon controla cada equipamento pelo celular, por meio de aplicativos que monitoram, em tempo real, a posição do pivô, o volume de água aplicado e a movimentação das torres. GPS integrado, registro das voltas completas, sensores e regulagens programáveis fazem parte da rotina moderna no campo, algo que, anos atrás, seria inimaginável. Ele demonstra na tela o funcionamento: com um toque, o sistema inicia o avanço seco, altera a lâmina de irrigação ou pausa o processo. Tudo à distância, inclusive do exterior, bastando ter acesso à internet.
O avanço tecnológico, porém, não elimina o esforço diário. Segundo o produtor, trata-se de uma operação que exige dedicação contínua. Manutenções, motores queimados, falhas elétricas e imprevistos obrigam a equipe a estar permanentemente atenta. “É como qualquer máquina: grandes, pesadas e essenciais. Quando dá problema, o prejuízo bate à porta”, relata. Em um episódio recente, um motor de 200 cavalos responsável por irrigar 120 hectares de milho entrou em pane justamente no período do pendão, fase crucial para a produtividade. A corrida contra o tempo foi intensa, mas o reparo evitou perdas gigantescas.
A infraestrutura de abastecimento hídrico é outra parte complexa desse processo. A propriedade utiliza tanto bombas submersas diretamente em rios quanto represas construídas para armazenar água, que é o recurso mais crítico da operação. Sem ela, não há irrigação. Durigon enfatiza que a legislação ambiental é rígida e o produtor precisa cumprir cada regra, licença e limite estabelecido. Além de investimento financeiro, é preciso planejamento e responsabilidade.
Ele também relembra um passado recente em que a única alternativa era esperar: olhar para o céu, observar folhas murchas e torcer para que a chuva chegasse. A ansiedade de décadas ainda está presente na memória, mas agora há outra realidade para quem conseguiu investir. Mesmo diante da repetição das estiagens, algumas influenciadas por La Niña e outras por variações inesperadas, como as registradas nas últimas 48 horas, o pivô traz uma nova lógica para o produtor, permitindo manter o plantio, ajustar datas e garantir que a lavoura complete o ciclo sem depender exclusivamente do clima.
Durigon afirma que o sistema mudou estruturalmente seu modelo de produção. Ele reconhece que o investimento inicial é elevado, a manutenção é diária e o risco existe, mas afirma com convicção que a rentabilidade conquistada nos últimos anos mostra que a tecnologia funciona e garante o futuro da atividade agrícola. Em suas palavras, o pivô deixou de ser luxo e se tornou ferramenta indispensável: “O clima não mudou, a estiagem vai continuar, mas agora temos como enfrentar”.
A reportagem encerra destacando que a adoção da irrigação mecanizada segue em crescimento no estado. Mesmo diante dos desafios, produtores veem nos pivôs não apenas uma máquina, mas um divisor de águas, no sentido literal e figurado, para a produção agrícola gaúcha.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper




