O ato de descartar o lixo, muitas vezes realizado de maneira automática no cotidiano, tem sido alvo de debates cada vez mais frequentes entre gestores públicos, agricultores e especialistas em meio ambiente. Embora o acesso à informação seja amplo e a discussão sobre sustentabilidade esteja inserida na rotina escolar, nas redes sociais e nos meios de comunicação, ainda há resistência na adoção de práticas simples como a separação do lixo doméstico. Em Espumoso, essa realidade começou a mudar nos últimos meses com a implantação do projeto Ecopila, desenvolvido pela Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente. A iniciativa tem como objetivo coletar resíduos orgânicos diretamente das residências participantes e transformá-los em benefícios para a própria comunidade. Agora, o projeto entra em uma nova fase, com mudança de nome e ampliação dos resultados esperados, passando a se chamar Grana Verde e Grana Azul.
Em entrevista conduzida pelo jornalista Fernando Kopper, da Rádio Planetário, o secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente, Fábio Ceccon, detalhou os passos dados até o momento e os impactos já observados na cidade. Segundo o secretário, a ideia começou a ser estruturada após uma série de estudos e visitas técnicas, especialmente a Santiago, município referência no estado quando o assunto é organização e destinação correta dos resíduos. Ceccon destacou que a apresentação que assistiu na Famurs, realizada pelo prefeito de Santiago, foi determinante para despertar o interesse em implementar algo semelhante em Espumoso. No município da Região Central, a separação de resíduos orgânicos e recicláveis é uma prática consolidada há mais de cinco anos e produz resultados consistentes em termos de redução do volume destinado ao aterro, economia e sustentabilidade urbana.
Ao trazer a proposta para Espumoso, a equipe da secretaria precisou adaptar o modelo à realidade local. Uma das constatações iniciais foi a forte presença de resíduos orgânicos no lixo produzido pela população, especialmente devido ao hábito tradicional do consumo de chimarrão, que gera grande volume de erva-mate descartada. “O problema do lixo é global, mas a solução é local. Ela começa dentro de casa”, afirmou Ceccon durante a entrevista. A partir dessa compreensão, o projeto iniciou sua fase piloto concentrando-se na coleta do orgânico, por entender que essa é a etapa mais complexa da separação e a que causa maiores impactos ambientais quando descartada incorretamente.
Desde o lançamento, realizado no final de agosto, foram distribuídos baldes para cerca de cem famílias voluntárias, que passaram a entregar semanalmente seus resíduos. Até o momento, já foram recolhidos mais de 5 mil quilos de material, dos quais aproximadamente 4 mil quilos são resíduos orgânicos. O material vem sendo transformado em composto orgânico pela própria equipe da secretaria, que já o utiliza na ornamentação de canteiros e espaços públicos da cidade. O resultado começa a ser percebido na prática: melhoria no solo, redução do uso de fertilizantes químicos e fortalecimento da estética urbana, ao mesmo tempo em que se diminui o volume destinado ao aterro sanitário.
Paralelamente, o município trabalhou na criação de um sistema de incentivo que pudesse atrair a população e manter o engajamento ao longo do tempo. Inicialmente chamado de Ecopila, inspirado no modelo desenvolvido em Montenegro, o sistema de trocas passa agora a se chamar Grana Verde e Grana Azul. A mudança será oficializada por meio de projeto de lei que deverá ser encaminhado à Câmara de Vereadores nos próximos dias. A Grana Verde será destinada às pessoas que entregam resíduos orgânicos e poderá ser utilizada na Feira do Produtor, onde estão presentes agricultores familiares do município. Já a Grana Azul, relacionada ao material reciclável, está sendo estruturada para ser utilizada em serviços como castrações de animais domésticos, via Castramóvel, incentivando também o cuidado com a saúde animal.
A organização das informações geradas pelo projeto é realizada manualmente, por meio de planilhas de pesagem e registros individuais. Cada balde entregue é pesado, registrado e convertido em valor correspondente. A primeira troca oficial da Grana Verde está programada para os dias 6 e 7 de dezembro, durante o Festival do Milho Verde, que será realizado com a presença de cerca de 30 produtores locais. A proposta é que os participantes do projeto possam adquirir alimentos saudáveis produzidos dentro do próprio município, fechando o ciclo entre destino correto do lixo, agricultura familiar e alimentação de qualidade.
Durante a entrevista, Ceccon reforçou que a construção de uma nova cultura ambiental não ocorre de forma imediata. A transição para um sistema completo de coleta seletiva depende do comprometimento da população no ato doméstico de separar os resíduos. “Mesmo cidades com coleta seletiva consolidada enfrentam o desafio dos hábitos. Não adianta ter caminhão separado se o lixo vai misturado para a rua. A mudança começa dentro da casa de cada cidadão”, afirmou. Ele explica que Espumoso está avançando por etapas: primeiro a conscientização e adaptação dos moradores; depois, o fortalecimento das ações de coleta; por fim, a implementação do sistema municipal de coleta seletiva com datas e caminhões distintos para cada tipo de resíduo.
Além de reduzir o impacto ambiental, o projeto promove benefícios sociais e econômicos. A diminuição do volume de lixo enviado ao aterro significa menor gasto público com transporte e destinação. O fortalecimento da agricultura familiar impacta diretamente a renda de produtores locais. A alimentação mais saudável contribui com a qualidade de vida da população. E a construção de uma cidade mais limpa e organizada eleva o senso de pertencimento e cuidado coletivo.
A consolidação da Grana Verde e Grana Azul pode representar um marco no modo como o município lida com seus resíduos e no engajamento da população em ações de responsabilidade ambiental. Segundo o secretário, o caminho é gradual, mas a transformação já está em curso. “Quando a comunidade se vê como parte da solução, a cidade muda junto”, afirmou.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper
